Uma coisa que tenho pensado ultimamente é sobre essa tal de information superhighway, a “superestrada da informação” que o pessoal dos anos 90 tanto prometia. O termo ficou famoso na boca de muita gente — inclusive do Bill Gates no The Road Ahead (publicado em novembro de 1995, com edição revisada em 1996) — e a ideia era mais ou menos assim: ter acesso a toda a informação do mundo, na velocidade da luz, do conforto da sua cadeira.

E para quem pensava que isso seria um sucesso, foi um sucesso e foi um fracasso ao mesmo tempo. Com as informações recentes, dá pra ver que ter acesso a tanta informação em tão pouco tempo gerou uma catástrofe em nível pessoal, social, entre outros. E é disso que quero falar hoje.

O preço da velocidade

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.” — Eclesiastes 3:1

Relógios derretendo numa paisagem surreal
Relógios moles à la Dalí. O tempo que vira puta da velocidade.

O tempo está ficando mais curto a cada dia, e a gente aproveita cada vez menos ele porque não faz nada valoroso ou marcante o bastante pra fazer esse tempo render.

Fora isso, estamos nos importando com problemas bem superficiais, tentando colocar uma máscara de oxigênio nos outros antes mesmo de pensarmos em colocá-la em nós mesmos.

A velocidade virou um fim em si mesma. A gente quer responder rápido, consumir rápido, ficar por dentro rápido, e esquece de perguntar rápido pra quê. Só que quanto mais rápido a gente consome, menos a gente absorve.

“Informação passa por você; conhecimento dissolve dentro de você.” — Jack Cheng, The Slow Web

O que é o Slow Movement

Em meio a tudo isso, surgiu um movimento que é, na prática, a inversão natural do imediatismo: o Slow Movement — do inglês, “movimento lento”. Ele tem uma dívida clara com o Slow Food, do Carlo Petrini, e dialoga de perto com o chamado Slow Web.

A ideia é fazer tudo no seu devido tempo, com a devida desaceleração do fazer no imediato. Valorizar o processo em vez de só o resultado.

E não, isso não nasceu agora nem é reação às redes sociais. O Slow Movement vem lá do fim dos anos 1980, quando o italiano Carlo Petrini criou o Slow Food pra brigar contra o fast food e a industrialização da comida — a gênese é até engraçada, porque tudo começou como reação à abertura de um McDonald’s perto da Escadaria Espanhola, em Roma. De lá pra cá a ideia se espalhou pro slow living, slow tech e companhia; a versão atual, ligada a resistência digital e dumbphones, é só o capítulo mais recente dessa história.

Saudosismo dos anos 2000

Parte dessa desaceleração passa por uma nostalgia cultural do consumo de internet de antigamente — não exatamente da década, mas do ritmo dela.

Naquela época, a web era mais lenta exatamente porque era mais deliberada. Você esperava uma página carregar, recebia e-mail com dias de intervalo, baixava um arquivo e tinha tempo para olhar o que era. Havia fricção, e a fricção filtrava o supérfluo.

Não é sobre achar que “antigamente era melhor”. É sobre lembrar que a velocidade nem sempre foi o único valor, e que dá para aproveitar o que a internet tem de bom sem tratar cada notificação como urgência.

Dumbphones

Uma das saídas práticas para esse imediatismo é abrir mão do excesso de estímulos no bolso. Já falei disso a respeito da criação de filhos, mas o raciocínio vale para todo mundo: não é preciso andar com um smartphone de última geração o tempo todo.

E não sou só eu pensando isso. Tem até um boom de dumbphones rolando — a galera da Gen Z, a mesma que cresceu enfiada em rede social, tá cansada da máquina de dopamina. Um bom exemplo é a Boring Phone, aquele fliphone transparente da Heineken com a Bodega, lançado na Milan Design Week de 2024, sem jogos, sem redes, sem quase nada — só pra ligar e mandar mensagem.

Fliphone transparente da Heineken e Bodega
The Boring Phone — Heineken × Bodega, Milan Design Week 2024. Foto via Hypebeast.

“Smartphones são interessantes demais pra vida social.” — publicidade da Boring Phone

Um dumbphone, com teclado e de preferência sem jogos ou outras distrações, pode ser uma escolha melhor do que um smartphone recheado de notificações. Sem a máquina de dopamina o tempo inteiro, a frustração de esperar volta — e junto com ela, um pouco da nossa capacidade de prestar atenção.

Slackjeff e o Vaporhole

Se existe um exemplo brasileiro concreto disso, é o Vaporhole, projeto idealizado pelo Slackjeff (Jefferson Carneiro, administrador de sistemas Linux desde 2005 e divulgador de software livre).

O Vaporhole se descreve como “uma rede social Lenta”. É um servidor compartilhado (Debian/*NIX) onde os membros se conectam via SSH para socializar, programar e estudar — no estilo do SDF e das tildes, como o tilde.club. A socialização acontece na linha de comando, com ferramentas como talk, who, wall, finger e até gopher, em vez de feeds infinitos e algoritmos. E essa escolha não é acidental: o próprio projeto fala em “Movimento Lento”.

Tela de terminal retrô com texto verde
A cara do Vaporhole: socializar pela linha de comando, no ritmo do SSH.

Não é sobre rejeitar a tecnologia — é sobre usá-la no ritmo dela, sem pressa, sem corrida por atenção. Uma rede social onde cada bit é digerido com calma.

Conclusão

A superestrada de informação entregou o que prometeu — acesso a tudo — mas esqueceu de ensinar a gente a digerir isso. Slow Movement, saudade dos anos 2000, dumbphone, Vaporhole: no fim são só formas diferentes de tentar recuperar um tempo que a velocidade vem roubando de mim há um bom tempo.

Não acho que seja a única solução, nem que precise ser radical. Mas reparando que o tempo anda mais curto a cada dia, percebo que o problema nunca foi o tempo em si — é o ritmo que a gente impõe pra cada coisa. Já dizia o Eclesiastes: há tempo para todo propósito debaixo do céu. A questão é a pressa com que a gente atropela cada um deles.

Fui!