<?xml version="1.0" encoding="utf-8" standalone="yes"?><rss version="2.0" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><channel><title>Vaporhole | FoxTechWorld</title><link>https://foxtechworld.github.io/tags/vaporhole/</link><description>Conteúdo recente em Vaporhole no FoxTechWorld.</description><language>pt-BR</language><copyright>KitsuneSemCalda (CC BY 4.0)</copyright><lastBuildDate>Sun, 30 Aug 2026 00:00:00 -0300</lastBuildDate><generator>Hugo</generator><atom:link href="https://foxtechworld.github.io/tags/vaporhole/" rel="self" type="application/rss+xml"/><item><title>Imediatismo e Slow Movement</title><link>https://foxtechworld.github.io/imediatismo-e-slow-movement/</link><guid isPermaLink="true">https://foxtechworld.github.io/imediatismo-e-slow-movement/</guid><pubDate>Sun, 16 Aug 2026 21:35:39 +0000</pubDate><description>Uma reflexão sobre o imediatismo digital e como o Slow Movement pode ser uma contracultura, do saudosismo dos anos 2000 ao Vaporhole do slackjeff.</description><category>Opinião</category><category>Imediatismo</category><category>Slow Movement</category><category>Contracultura</category><category>Dumbphones</category><category>Anos 2000</category><category>Vaporhole</category><content:encoded><![CDATA[<p>Uma coisa que tenho pensado ultimamente é sobre essa tal de <em>information superhighway</em>, a &ldquo;superestrada da informação&rdquo; que o pessoal dos anos 90 tanto prometia. O termo ficou famoso na boca de muita gente — inclusive do <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/The_Road_Ahead_(Bill_Gates_book)"><strong>Bill Gates no The Road Ahead</strong></a> (publicado em novembro de 1995, com edição revisada em 1996) — e a ideia era mais ou menos assim: ter acesso a toda a informação do mundo, na velocidade da luz, do conforto da sua cadeira.</p>
<p>E para quem pensava que isso seria um sucesso, foi um sucesso e foi um fracasso ao mesmo tempo. Com as informações recentes, dá pra ver que ter acesso a tanta informação em tão pouco tempo gerou uma catástrofe em nível pessoal, social, entre outros. E é disso que quero falar hoje.</p>
<h2 id="o-preço-da-velocidade">O preço da velocidade</h2>
<blockquote>
<p>&ldquo;Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.&rdquo; — <strong>Eclesiastes 3:1</strong></p>
</blockquote>
<p><figure><img
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      alt="Relógios derretendo numa paisagem surreal" title="Relógios moles à la Dalí. O tempo que vira puta da velocidade."><figcaption>Relógios moles à la Dalí. O tempo que vira puta da velocidade.</figcaption>
</figure>
</p>
<p>O tempo está ficando mais curto a cada dia, e a gente aproveita cada vez menos ele porque não faz nada valoroso ou marcante o bastante pra fazer esse tempo render.</p>
<p>Fora isso, estamos nos importando com problemas bem superficiais, tentando colocar uma máscara de oxigênio nos outros antes mesmo de pensarmos em colocá-la em nós mesmos.</p>
<p>A velocidade virou um fim em si mesma. A gente quer responder rápido, consumir rápido, ficar por dentro rápido, e esquece de perguntar rápido pra quê. Só que quanto mais rápido a gente consome, menos a gente absorve.</p>
<blockquote>
<p>&ldquo;Informação passa por você; conhecimento dissolve dentro de você.&rdquo; — <a href="https://jackcheng.com/the-slow-web/"><strong>Jack Cheng, The Slow Web</strong></a></p>
</blockquote>
<h2 id="o-que-é-o-slow-movement">O que é o Slow Movement</h2>
<p>Em meio a tudo isso, surgiu um movimento que é, na prática, a inversão natural do imediatismo: o <em>Slow Movement</em> — do inglês, &ldquo;movimento lento&rdquo;. Ele tem uma dívida clara com o <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Slow_Food"><strong>Slow Food</strong></a>, do Carlo Petrini, e dialoga de perto com o chamado <a href="https://jackcheng.com/the-slow-web/"><strong>Slow Web</strong></a>.</p>
<p>A ideia é fazer tudo no seu devido tempo, com a devida desaceleração do fazer no imediato. Valorizar o processo em vez de só o resultado.</p>
<p>E não, isso não nasceu agora nem é reação às redes sociais. O Slow Movement vem lá do fim dos anos 1980, quando o italiano Carlo Petrini criou o Slow Food pra brigar contra o fast food e a industrialização da comida — a gênese é até engraçada, porque tudo começou como reação à abertura de um McDonald&rsquo;s perto da Escadaria Espanhola, em Roma. De lá pra cá a ideia se espalhou pro <em>slow living</em>, <em>slow tech</em> e companhia; a versão atual, ligada a resistência digital e dumbphones, é só o capítulo mais recente dessa história.</p>
<h2 id="saudosismo-dos-anos-2000">Saudosismo dos anos 2000</h2>
<p>Parte dessa desaceleração passa por uma nostalgia cultural do consumo de internet de antigamente — não exatamente da década, mas do <strong>ritmo</strong> dela.</p>
<p>Naquela época, a web era mais lenta exatamente porque era mais deliberada. Você esperava uma página carregar, recebia e-mail com dias de intervalo, baixava um arquivo e tinha tempo para olhar o que era. Havia fricção, e a fricção filtrava o supérfluo.</p>
<p>Não é sobre achar que &ldquo;antigamente era melhor&rdquo;. É sobre lembrar que a velocidade nem sempre foi o único valor, e que dá para aproveitar o que a internet tem de bom sem tratar cada notificação como urgência.</p>
<h2 id="dumbphones">Dumbphones</h2>
<p>Uma das saídas práticas para esse imediatismo é abrir mão do excesso de estímulos no bolso. Já falei disso a respeito da <a href="/opiniao-nao-tenha-criancas-sem-antes-pensar-nisso/"><strong>criação de filhos</strong></a>, mas o raciocínio vale para todo mundo: não é preciso andar com um smartphone de última geração o tempo todo.</p>
<p>E não sou só eu pensando isso. Tem até um <a href="https://www.theguardian.com/society/2024/apr/27/the-boring-phone-stressed-out-gen-z-ditch-smartphones-for-dumbphones"><strong>boom de dumbphones</strong></a> rolando — a galera da Gen Z, a mesma que cresceu enfiada em rede social, tá cansada da máquina de dopamina. Um bom exemplo é a <strong>Boring Phone</strong>, aquele fliphone transparente da <a href="https://www.wired.com/story/hmd-the-boring-phone-heineken-bodega/"><strong>Heineken com a Bodega</strong></a>, lançado na Milan Design Week de 2024, sem jogos, sem redes, sem quase nada — só pra ligar e mandar mensagem.</p>
<p><figure><img src="https://image-cdn.hypb.st/https%3A%2F%2Fhypebeast.com%2Fimage%2F2024%2F04%2F18%2Fbodega-x-heineken-hmd-boring-phone-milan-design-week-images-1.jpg?q=90&amp;w=800&amp;cbr=1&amp;fit=max" loading="lazy" decoding="async" alt="Fliphone transparente da Heineken e Bodega" title="The Boring Phone — Heineken × Bodega, Milan Design Week 2024. Foto via Hypebeast."><figcaption>The Boring Phone — Heineken × Bodega, Milan Design Week 2024. Foto via Hypebeast.</figcaption>
</figure>
</p>
<blockquote>
<p>&ldquo;Smartphones são interessantes demais pra vida social.&rdquo; — <strong>publicidade da Boring Phone</strong></p>
</blockquote>
<p>Um <em>dumbphone</em>, com teclado e de preferência sem jogos ou outras distrações, pode ser uma escolha melhor do que um smartphone recheado de notificações. Sem a máquina de dopamina o tempo inteiro, a frustração de esperar volta — e junto com ela, um pouco da nossa capacidade de prestar atenção.</p>
<h2 id="slackjeff-e-o-vaporhole">Slackjeff e o Vaporhole</h2>
<p>Se existe um exemplo brasileiro concreto disso, é o <a href="https://vaporhole.xyz/"><strong>Vaporhole</strong></a>, projeto idealizado pelo <a href="https://slackjeff.com.br/"><strong>Slackjeff</strong></a> (Jefferson Carneiro, administrador de sistemas Linux desde 2005 e divulgador de software livre).</p>
<p>O Vaporhole se descreve como &ldquo;uma rede social Lenta&rdquo;. É um servidor compartilhado (Debian/*NIX) onde os membros se conectam via <strong>SSH</strong> para socializar, programar e estudar — no estilo do <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/SDF_Public_Access_Unix_System"><strong>SDF</strong></a> e das <em>tildes</em>, como o <a href="https://tilde.club/"><strong>tilde.club</strong></a>. A socialização acontece na linha de comando, com ferramentas como <code>talk</code>, <code>who</code>, <code>wall</code>, <code>finger</code> e até gopher, em vez de feeds infinitos e algoritmos. E essa escolha não é acidental: o próprio projeto fala em &ldquo;Movimento Lento&rdquo;.</p>
<p><figure><img
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      alt="Tela de terminal retrô com texto verde" title="A cara do Vaporhole: socializar pela linha de comando, no ritmo do SSH."><figcaption>A cara do Vaporhole: socializar pela linha de comando, no ritmo do SSH.</figcaption>
</figure>
</p>
<p>Não é sobre rejeitar a tecnologia — é sobre usá-la no ritmo dela, sem pressa, sem corrida por atenção. Uma rede social onde cada bit é digerido com calma.</p>
<h2 id="conclusão">Conclusão</h2>
<p>A superestrada de informação entregou o que prometeu — acesso a tudo — mas esqueceu de ensinar a gente a digerir isso. Slow Movement, saudade dos anos 2000, dumbphone, Vaporhole: no fim são só formas diferentes de tentar recuperar um tempo que a velocidade vem roubando de mim há um bom tempo.</p>
<p>Não acho que seja a única solução, nem que precise ser radical. Mas reparando que o tempo anda mais curto a cada dia, percebo que o problema nunca foi o tempo em si — é o ritmo que a gente impõe pra cada coisa. Já dizia o Eclesiastes: há tempo para todo propósito debaixo do céu. A questão é a pressa com que a gente atropela cada um deles.</p>
<p>Fui!</p>
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